SOLITÁRIA


Mulheres negras são espectadoras em um mundo que não foi construído para elas. Elas observam, admiram, e limpam uma vida que foi indisposta a elas. Somos forçadas a sermos parasitas, me forçam a tomar um sangue amargo, viro uma sanguessuga indisposta. Esperam que eu agradeça pelo sangue que me forçam a tomar, ao mesmo tempo que querem que eu agradeça pelo sangue que sai de minha pele alva. Quando vou parar de ser espectadora, e virar participante? Eu ajudo a construir um mundo que nunca foi meu, construo para outra pessoa, e, se um dia, eu sonhar em me encaixar nele, preciso me envergar, me mutilar, me objetificar para entrar nesta porta estreita demais pra mim. Quando será que as feridas irão sumir? Quando que o mundo não será mais deles? Será que eu conseguiria, um dia, construir um mundo pensando em mim? Esse mundo se quer é uma possibilidade no plano real? Ou é apenas uma vontade gerada pelas minhas frustrações e depressões? Será que um dia, eu vou conseguir vomitar seu sangue grotesco de meu interior?

O trabalho doméstico é uma prisão, é o mundo deles que eu construí com minhas mãos cansadas. Meu corpo é uma fábrica treinada, movimentos repetitivos, comportamentos gravados, sentimentos cortados, e uma neblina cinza de poluição que cobre tudo. A fábrica é minha solitária, minha cela, que me isola ao mesmo tempo que me conecta a milhões de outras como eu. Estamos todas presas uma do lado a outra, sem podermos nos ouvir.

Minhas mãos estão treinadas, colonizadas, se eu for construir um mundo meu, acabarei fazendo outro para eles, apenas pintado de outra cor. Não quero retornar a um passado que não me pertence, nem quero o rejeitar, quero saber olhar para trás e salvar aquilo que ainda cresce dentro de mim, quero olhar para o presente e saber quais são as rosas que tem espinhos que me rasgam por dentro. Um dia vou aprender que não preciso de rosas, posso ter margaridas, posso não gostar de flores, posso escolher outra planta que me acolha. Uma planta, uma semente que nos acolha, quero plantá-lá. Quero criar um mundo, posso criar um mundo, posso me desamarrar, posso desaprender tudo que aprendi, posso rejeitar tudo aquilo que me machuca, posso criar um lugar que, um dia, eu seja pertencente. Eu não posso sozinha, eu posso como nós, nós posso, eu posso. Iremos todas, em nossas solitárias, criarmos juntas outro mundo, que não possui nenhuma grande.


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